Na tarde desta segunda-feira (31), foi realizada uma audiência pública sobre a endometriose, com o tema Sentir Dor Não é Normal, de iniciativa da vereadora Luma Menezes (PDT), no plenário da Câmara Municipal de Alagoinhas. A audiência, que reuniu diversas representantes de instituições e setores da sociedade, aconteceu com mais de um mês de antecedência do Dia Internacional da Luta contra a Endometriose, que será celebrado em 7 de maio. Debatendo previamente os desafios e possíveis soluções para o problema, o evento teve o objetivo de subsidiar a construção do programa municipal de prevenção e combate à endometriose.
A abertura contou com uma palestra da própria vereadora Luma, que abordou aspectos fisiológicos e políticos da doença, apresentando dados relevantes que reforçam a urgência de atenção para a causa. “Existe mais investimento para estudos sobre calvície do que para endometriose, sendo que, de acordo com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, mais de 160 milhões de mulheres no mundo são acometidas pela doença”, destacou. “Cerca de oito milhões de mulheres enfrentam a endometriose no Brasil e em até 20% dos casos, ela se manifesta de forma silenciosa”.
A ginecologista e obstetra Dra. Rosália Carvalho de Souza, que compôs a mesa do evento, reforçou os impactos da doença. “A endometriose ainda é muito misteriosa, mas sabemos que essa doença, tão injusta, representa medo, insegurança, infertilidade… e dor, muita dor”, afirmou. “São vários os tratamentos paliativos, como analgésicos e anti-inflamatórios, mas o tratamento realmente eficaz ocorre apenas por meio da cirurgia, que está cada vez mais difícil de ser conseguida”.
Após comentar sobre o uso de bloqueio hormonal como forma de controle da dor oriunda da endometriose, a médica passou a palavra ao infectologista Dr. Maurício Campos, coordenador do curso de Medicina da Faculdade Estácio de Sá, que destacou a importância de se considerar o aspecto emocional atrelado às dores vividas pelas mulheres com a condição. “Há uma vasta literatura sobre o tema, sendo que 30% dos materiais indexados nos motores de busca tratam das questões emocionais da mulher com endometriose. Isso é alarmante, quando consideramos que a dor está entre as principais causas de suicídio no Brasil e no mundo”, explicou.
Ana Márcia Conceição, gerente de Política de Proteção à Mulher e Igualdade de Gênero da Secretaria de Desenvolvimento Social de Alagoinhas, e portadora de endometriose, compartilhou um relato pessoal. “No ano de 2020, fui diagnosticada com câncer e, durante esse processo, descobri que também tinha endometriose. Talvez, se lá atrás tivessem existido debates como este, eu não teria sofrido tanto. As escolas precisam debater esse tema; as meninas precisam saber o que é endometriose. Sentir dor não é normal”, destacou.
Representando a Secretaria Municipal de Saúde, Mônica Santos coordenadora de Atenção Primária, contribuiu descrevendo o fluxo de atendimento para mulheres com endometriose no município. “A porta de entrada é sempre a atenção básica, por meio das unidades de saúde da família ou unidades primárias. A partir da suspeita clínica, os exames são solicitados e, com o diagnóstico por imagem, a paciente é encaminhada ao ginecologista da rede, preferencialmente na Policlínica Municipal, para mantermos o acompanhamento próximo”, explicou.
Em seguida, Liana Cajado, do Planejamento Estratégico em Saúde, também da SESAU, abordou a subnotificação da doença. “Temos cerca de 50 mil mulheres em idade fértil, mas apenas 24 casos foram reconhecidos pela regulação em 2024. Isso mostra que há muitas mulheres sem diagnóstico. Hoje conseguimos apenas três agendamentos cirúrgicos por ano. É urgente fortalecer a educação em saúde e ampliar o acesso. Estamos planejando políticas específicas dentro do Programa de Saúde da Mulher para garantir atenção integral à pessoa com endometriose”, completou.
Jamily Araújo, vice-presidente da OAB Alagoinhas e presidente da OAB Mulher, destacou a importância do envolvimento jurídico na pauta. “A luta pelos direitos das mulheres é diária. A endometriose impacta diretamente a saúde e a qualidade de vida. Precisamos unir forças entre instituições e poder público para garantir políticas que assegurem dignidade a essas mulheres”.
Também representando a OAB Mulher, a advogada Izabelita Sacramento reforçou o recorte social da discussão. “Não há como garantir dignidade humana sem políticas públicas que reconheçam a endometriose como um problema real. A falta de acesso ao diagnóstico e tratamento afeta principalmente as mulheres mais vulneráveis. É preciso garantir o direito da decisão sobre seu corpo e suas escolhas reprodutivas, com a garantia do acesso à saúde”, argumentou.
Representando o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, a nutricionista Luciana Labidel destacou a importância do acompanhamento nutricional no tratamento da endometriose. “Meus colegas estão sobrecarregados, e o acompanhamento precisa ser contínuo. Não é uma ou duas consultas que resolvem”. Ela também reforçou a necessidade de letramento racial entre os profissionais de saúde, considerando o perfil das mulheres mais afetadas pela doença: “A maioria dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) são pessoas negras. E não queremos mais continuar sentindo dor. Não é a nossa cor que faz com que a gente aguente mais”. Por fim, defendeu maior presença de mulheres nos espaços de decisão: “Se não tivermos vereadoras, deputadas, mulheres nesses espaços, nossas pautas não serão consideradas”.
A coordenadora do Núcleo de Prática Jurídica da Faculdade Santíssimo Sacramento, Bárbara Moraes, destacou como a endometriose e outras condições que causam dor impactam diretamente a vida acadêmica e profissional das mulheres. “Semana passada, uma aluna não foi à aula porque estava praticamente de cama. Falar sobre isso nas instituições de ensino superior é essencial, pois muitas vêm de ambientes onde não conhecem o próprio corpo”. Ela defendeu que o debate vá além da saúde: “A dor afeta o estudo, o trabalho, o psicológico e o financeiro. Muitas vezes a mulher falta ao trabalho e o patrão desconta o dia. Isso não pode continuar acontecendo”, afirmou.
Os vereadores Cláudio Abiúde (Republicanos) e Thor de Ninha (PT) também participaram da audiência e destacaram a importância do tema. Abiúde reforçou a empatia necessária por parte dos homens diante da dor enfrentada pelas mulheres: “Nós, enquanto homens, não podemos mensurar a dor sentida por vocês. Mas, quando temos uma irmã, uma mulher em casa que passa por isso, essa dor se torna nossa também”. Já Thor de Ninha reconheceu a relevância do debate e o quanto ele contribuiu para sua própria conscientização: “Vou falar por mim: eu desconhecia totalmente o tema da endometriose. Tenho esposa, filhas adolescentes, e saio daqui com um nível de conhecimento muito maior. Sentir dor não é normal”.
Participação
A advogada e jornalista Selma Nunes, que estava no espaço destinado ao público, compartilhou que recentemente uma amiga a havia procurado porque a filha estava com endometriose severa, sem plano de saúde e sem acesso ao SUS. Em seguida, destacou o papel da judicialização diante da falta de políticas públicas. “A ação de obrigação de fazer com tutela de urgência tem sido uma das únicas saídas. A saúde está judicializada porque faltam leis e protocolos que funcionem de verdade”. Selma também apontou a fragilidade do sistema em Alagoinhas e a urgência de formalizar a rede de apoio: “Sem articulação entre profissionais, universidades e poder público, vamos continuar tratando esse problema de forma fragmentada”.
Em resposta, a ginecologista Rosália Carvalho reconheceu as falhas do sistema. “Infelizmente, o vilão dessa história é o SUS. Ele é bom, mas nem sempre está em boas mãos. Na rede privada, a mulher com endometriose é assistida. Na pública, ela pena na fila. Precisamos de protocolos bem amarrados para que o SUS funcione como deveria”, respondeu.
Já o infectologista Maurício Campos reforçou a necessidade de união e mobilização. “O processo é lento, mas dá frutos. Lutamos pela reconstrução mamária no SUS e conseguimos. A luta pela endometriose precisa seguir o mesmo caminho”, argumentou.
Por fim, a vereadora Luma Menezes destacou o papel familiar no suporte à mulher diagnosticada com a doença, trazendo o seu próprio relato pessoal. “Quando eu recebi o diagnóstico de endometriose, em 2023, minha mãe estava do meu lado e me acompanhou em todo esse processo. Além do acompanhamento psicológico, eu também reforço a importância do apoio familiar nessa etapa. A compreensão e o entendimento da família fazem toda diferença”, concluiu.
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